Helô de olho em Ribeirão Preto
O Setembro Verde, mês dedicado à conscientização sobre a doação de órgãos, chama atenção para um cenário que reúne avanços e desafios no Brasil. Dados apresentados no Registro Brasileiro de Transplantes apontam crescimento no número de procedimentos, enquanto a recusa familiar continua sendo um dos obstáculos para ampliar a disponibilidade de órgãos.
Em 2025, 4.335 pessoas receberam pelo menos um órgão transplantado, segundo os dados citados no material. O rim permaneceu como o órgão mais transplantado, com 6.697 procedimentos, alta de 5,9% em relação a 2024. O fígado registrou 2.573 transplantes, crescimento de 4,8% no período.
Apesar dos avanços, ao final de 2025, quase 39 mil pessoas aguardavam por um transplante no país, de acordo com as informações apresentadas pelo material.
Transplante renal e diagnóstico antecipado
Para o nefrologista Filipe Miranda Bernardes, do Grupo São Lucas, o transplante renal pode representar uma mudança significativa na rotina de pacientes que dependem de diálise, com possibilidade de maior autonomia e qualidade de vida.
O especialista ressalta, porém, que existe uma diferença entre a quantidade de pessoas que necessitam de um rim e a disponibilidade de órgãos.
Outro ponto destacado pelo médico é a importância de encaminhar pacientes com doença renal crônica para avaliação de transplante no momento adequado. Segundo o consenso citado no material, potenciais candidatos devem ser encaminhados quando a taxa de filtração glomerular estiver abaixo de 20 mL/min/1,73 m² e, quando possível, o processo deve começar de seis a 12 meses antes da previsão de necessidade de diálise.
A antecipação permite realizar exames, avaliações cardiológicas, investigação de infecções, atualização de vacinas e, em alguns casos, avaliar a possibilidade de um doador vivo.
“Quando o paciente chega cedo, nós ganhamos algo extremamente valioso na medicina, tempo para planejar. Em alguns casos, é possível até realizar o transplante antes de o paciente precisar iniciar diálise, o chamado transplante preemptivo.”
Como funciona a doação após a morte encefálica
A maior parte dos órgãos destinados a transplantes vem de doadores falecidos. Em grande parte dessas situações, a doação ocorre após o diagnóstico de morte encefálica.
A morte encefálica significa a perda completa e irreversível das funções do cérebro. O diagnóstico segue um protocolo médico específico, que inclui a existência de uma causa conhecida para a lesão cerebral, a exclusão de condições que possam interferir na avaliação e exames realizados por profissionais capacitados.
O processo também inclui avaliações clínicas em momentos distintos, teste de apneia e exame complementar que demonstre a ausência de atividade ou circulação sanguínea cerebral, conforme os critérios estabelecidos.
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Recusa familiar ainda é um desafio
Mesmo com protocolos definidos para o diagnóstico de morte encefálica, a recusa familiar continua sendo apontada como uma dificuldade no processo de doação.
Segundo Filipe Bernardes, dúvidas sobre o diagnóstico e crenças relacionadas à retirada dos órgãos podem influenciar a decisão dos familiares.
“Algumas pessoas veem o coração batendo com auxílio de aparelhos e têm dificuldade para compreender que aquela pessoa já faleceu. Também existem receios de que a retirada dos órgãos desfigure o corpo, de que a família tenha custos ou até de que a equipe médica possa reduzir os esforços para salvar a vida de alguém que seja doador.”
O médico explica que a retirada dos órgãos é realizada cirurgicamente por equipes autorizadas, com posterior reconstituição do corpo. O diagnóstico de morte encefálica também é independente da decisão sobre a doação.
No Brasil, a autorização para a doação após a morte é dada pela família. Por isso, a orientação do especialista é conversar previamente com os familiares sobre a própria vontade de ser doador.
Sistema de transplantes passou por mudanças
Em 2025, o Ministério da Saúde estabeleceu a Política Nacional de Doação e Transplantes (PNDT), com diretrizes para fortalecer a organização do Sistema Nacional de Transplantes e buscar maior equidade entre as regiões.
Entre as medidas previstas estão a integração entre as estruturas estaduais e a Central Nacional de Transplantes, a organização das listas de espera e o aprimoramento da logística de distribuição e transporte de órgãos. A regulamentação também atribui responsabilidades específicas às centrais estaduais e à Central Nacional na alocação e transporte dos órgãos.
Em 2026, o Ministério da Saúde também publicou um Manual de boas práticas cirúrgicas e melhoria da logística de retirada, preservação, acondicionamento, armazenamento e transporte de órgãos para transplantes.
A seleção dos receptores não ocorre simplesmente pela ordem de chegada. Depois da avaliação e da inscrição no Sistema Nacional de Transplantes, a definição considera critérios técnicos, incluindo compatibilidade e tempo de espera, entre outros parâmetros previstos no sistema.
Para Bernardes, além de ampliar a doação, é necessário aprimorar todas as etapas do processo, desde a identificação dos potenciais doadores até o transporte e a chegada do paciente ao transplante.
“O desafio dos próximos anos é fazer com que toda essa estrutura funcione cada vez mais como uma rede integrada, identificando melhor os doadores, aproveitando mais órgãos, transportando-os com rapidez e fazendo o paciente chegar ao transplante na hora certa.”