Estagnação do índice desde 2018 evidencia falhas na aprendizagem e reforça a necessidade de mudanças estruturais na educação brasileira
O Brasil convive com um desafio silencioso que afeta diretamente o desenvolvimento econômico, a competitividade das empresas e a formação da mão de obra: o analfabetismo funcional. Apesar da ampliação do acesso à educação nas últimas décadas, uma parcela significativa da população ainda encontra dificuldades para compreender textos, interpretar informações e resolver problemas básicos do cotidiano.
Dados do Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf) 2024 revelam que 29% dos brasileiros entre 15 e 64 anos permanecem em situação de analfabetismo funcional. Na prática, isso significa que quase três em cada dez pessoas não conseguem utilizar plenamente habilidades de leitura, escrita e matemática em situações do dia a dia, mesmo tendo frequentado a escola.
O índice permanece praticamente inalterado desde 2018, demonstrando que o país enfrenta um problema estrutural de aprendizagem que vai muito além da matrícula e da permanência dos estudantes nas salas de aula.
Escolarização não garante aprendizagem
O analfabetismo funcional não significa ausência completa de alfabetização. Grande parte dessas pessoas sabe ler palavras e frases simples, mas apresenta dificuldade para interpretar textos mais complexos, analisar informações, realizar cálculos básicos e aplicar conhecimentos em situações práticas.
Esse cenário evidencia uma desconexão entre escolarização e aprendizagem efetiva, gerando impactos que acompanham o cidadão ao longo da vida profissional e pessoal.
Segundo Antonio Esteca, especialista em avaliação e regulação da educação superior, avaliador do Inep/MEC e CEO da Faculdade Metropolitana do Estado de São Paulo, o problema está diretamente relacionado à qualidade da formação oferecida.
“O país ampliou o acesso à escola, mas não garantiu aprendizagem consistente. O analfabetismo funcional expõe justamente essa fragilidade: a incapacidade de transformar escolaridade em competência.”
Jovens apresentam piora nos indicadores
Um dos aspectos que mais preocupa os especialistas é o avanço do problema entre os mais jovens.
Na faixa etária de 15 a 29 anos, a taxa de analfabetismo funcional aumentou de 14% para 16%, indicando perda de qualidade na formação das novas gerações justamente em um momento em que o mercado exige profissionais cada vez mais preparados.
Mesmo entre estudantes que concluíram etapas importantes da educação, as deficiências permanecem. O levantamento aponta que:
- 17% dos concluintes do Ensino Médio não atingem níveis adequados de proficiência;
- 12% dos estudantes que chegaram ao Ensino Superior também apresentam limitações significativas de leitura, interpretação e raciocínio lógico.
Os números reforçam que concluir uma etapa escolar não significa, necessariamente, desenvolver as competências exigidas pela sociedade e pelo mercado de trabalho.
Veja também:
Baixa produtividade limita crescimento econômico
Os reflexos do analfabetismo funcional ultrapassam a educação e impactam diretamente a economia brasileira.
A produtividade do trabalhador brasileiro permanece abaixo da observada em diversos países. Atualmente, cada trabalhador gera aproximadamente US$ 22 por hora, enquanto economias latino-americanas, como Chile e Argentina, registram cerca de US$ 33 por hora. Em países desenvolvidos, como a Itália, esse indicador supera US$ 70 por hora.
Para Antonio Esteca, essa diferença está diretamente relacionada à formação educacional.
“Sem domínio de leitura, interpretação e raciocínio lógico, há uma limitação objetiva na capacidade de execução, tomada de decisão e inovação dentro das empresas. Isso se traduz em menor eficiência econômica.”
A consequência é uma economia menos competitiva, com dificuldades para inovar, incorporar novas tecnologias e aumentar sua produtividade.
Tecnologia amplia desafio
O avanço da transformação digital tornou o domínio da leitura e da interpretação ainda mais importante.
Hoje, praticamente todas as profissões exigem algum nível de interação com plataformas digitais, sistemas informatizados e tecnologias baseadas em dados.
Entretanto, especialistas alertam que mais de 90% das pessoas em situação de analfabetismo funcional apresentam também baixo desempenho em habilidades digitais, o que amplia a exclusão social e reduz o acesso a oportunidades de trabalho e qualificação.
Na área de tecnologia, por exemplo, o Brasil enfrenta um déficit estimado de 1,5 milhão de profissionais. Parte desse problema está relacionada às dificuldades educacionais observadas ainda na formação básica.
Segundo o PISA 2022, apenas 15% dos estudantes brasileiros alcançam níveis adequados de proficiência em leitura e somente 12% apresentam desempenho satisfatório em matemática ao final da educação básica.
Educação precisa priorizar aprendizagem
Especialistas defendem que enfrentar o analfabetismo funcional exige políticas públicas de longo prazo, investimento na formação de professores, fortalecimento da educação básica e acompanhamento permanente da aprendizagem dos estudantes.
Mais do que ampliar vagas escolares, o desafio passa por garantir que os alunos desenvolvam competências capazes de prepará-los para um mercado de trabalho cada vez mais exigente e tecnológico.
Para Antonio Esteca, a mudança de foco é essencial.
“O Brasil precisa alinhar sua estratégia educacional às demandas do século XXI. Isso passa por garantir que o aluno aprenda de fato, e não apenas avance nas etapas formais. Sem essa mudança, o país continuará enfrentando limitações estruturais ao seu desenvolvimento.”
O combate ao analfabetismo funcional deixou de ser apenas uma questão educacional. Hoje, representa um dos principais desafios para o crescimento econômico, a inovação, a inclusão digital e a construção de uma sociedade mais preparada para os desafios das próximas décadas.