Atualização da NR-1 passa a exigir que empresas do setor rural monitorem fatores como estresse, assédio e sobrecarga; especialistas alertam para prazo curto e impacto direto nas operações O prazo está correndo para o agronegócio brasileiro. A partir de 26 de maio de 2026, todas as empresas do país — incluindo as do setor rural — terão que identificar, avaliar e gerenciar os chamados riscos psicossociais no ambiente de trabalho. A exigência faz parte da atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), oficializada pela Portaria nº 1.419/2024 do Ministério do Trabalho e Emprego. Com a mudança, fatores como estresse, assédio e sobrecarga passam a integrar obrigatoriamente o Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR), ao lado dos riscos físicos, químicos e biológicos já tradicionalmente monitorados. Os riscos psicossociais estão diretamente ligados à forma como o trabalho é organizado e conduzido. Quando negligenciados, podem desencadear problemas como estresse crônico, ansiedade e depressão. No campo, esses desafios ganham características próprias. O isolamento geográfico, a dependência das condições climáticas, a sazonalidade das atividades, jornadas intensas em períodos de safra e modelos de remuneração atrelados à produtividade tornam o cenário ainda mais sensível. Dados da Pesquisa Nacional de Saúde do IBGE (2019) mostram que 7,8% da população em áreas rurais possui diagnóstico de depressão. Outro dado relevante é que a busca por apoio psicológico nesse grupo é cerca de 50% menor em comparação com trabalhadores urbanos, evidenciando não apenas a dimensão do problema, mas também a necessidade de atuação preventiva. Veja também: Acirp abre curso com Sebrae para fortalecer marketing de vendas de empreendedores Imposto de Renda pode facilitar acesso de autônomos ao crédito imobiliário “O setor já está habituado a lidar com normas como a NR-31 e a gerenciar riscos físicos e químicos. O que muda agora é o reconhecimento de que a própria organização do trabalho — ritmo, metas, isolamento — também representa um fator de risco que precisa ser tratado de forma estruturada”, explica a especialista Veridiana Moreira Police. A adequação à nova exigência passa pela integração de três normas principais: a NR-1, que estabelece a obrigatoriedade do gerenciamento dos riscos psicossociais; a NR-17, que trata das condições de organização do trabalho; e a NR-31, específica para o setor rural, que já prevê o Programa de Gerenciamento de Riscos no Trabalho Rural (PGRTR). Na prática, esse processo exige uma atuação multidisciplinar. Profissionais que atuam diretamente na implementação dessas mudanças, como o consultor Fabiolo Molina, da Excellence Treinamento & Desenvolvimento, e o médico do trabalho Eduardo Vita Salles, da EVS Assessoria em Medicina do Trabalho, reforçam que o desafio vai além do cumprimento formal da norma. “Não se trata apenas de ajustar documentos. As empresas precisam revisar a forma como organizam o trabalho no dia a dia, desde metas até jornadas e lideranças. Quando isso é bem feito, o ganho não é só jurídico, é também de produtividade e engajamento”, destaca Fabiolo Molina. Já na visão da medicina do trabalho, o impacto é direto na saúde dos colaboradores. “Os riscos psicossociais têm reflexo concreto no adoecimento dos trabalhadores. Identificar esses fatores de forma precoce permite reduzir afastamentos, melhorar o clima organizacional e atuar de forma preventiva, que é o grande objetivo da norma”, afirma o médico do trabalho Eduardo Vita Salles. Segundo especialistas, empresas que tratarem a mudança apenas como uma formalidade correm o risco de não atender plenamente às exigências legais. O tema também já avança no campo legislativo. O Projeto de Lei nº 1.751/2025, em tramitação na Câmara dos Deputados, propõe a criação de uma Política Nacional de Saúde Mental voltada à agricultura, com ações como campanhas de conscientização, serviços de acolhimento e grupos de apoio. Além da obrigação legal, a antecipação às novas regras pode trazer vantagens competitivas. Empresas que se adequarem tendem a fortalecer sua reputação, melhorar o ambiente de trabalho e reduzir riscos de passivos trabalhistas. Por outro lado, o não cumprimento pode resultar em autuações e aumento de demandas na Justiça do Trabalho, especialmente em setores com histórico de adoecimento mental. O prazo final, 26 de maio de 2026, já é tratado por especialistas como um ponto crítico. Na prática, o tempo de adaptação é curto — e a corrida pela adequação já começou.
Empresas ampliam foco em saúde mental no trabalho
A saúde mental deixou de ser apenas pauta de bem-estar para se tornar também tema estratégico nas empresas. Em Ribeirão Preto, a Associação Comercial e Industrial (Acirp), por meio do ACI Educa, promove um ciclo de capacitação sobre a NR-01, norma que trata da gestão de riscos ocupacionais e que agora reforça a atenção aos fatores psicossociais no ambiente corporativo. A programação inclui palestra gratuita e curso prático entre fevereiro e março, voltados a empresários, gestores e profissionais de RH interessados em entender as novas exigências legais e aplicá-las de forma estruturada no dia a dia das organizações. Mais do que cumprir legislação, a proposta é estimular uma cultura preventiva. Ansiedade, estresse crônico, sobrecarga emocional e conflitos organizacionais já impactam diretamente produtividade, clima interno e retenção de talentos — realidade que vem ganhando espaço nas estratégias empresariais. Veja também: Leandro Hassum traz stand-up a Ribeirão Preto CASACOR Ribeirão confirma edição 2026 Outro movimento importante é a expansão dos treinamentos in company, modelo que leva capacitações personalizadas diretamente às empresas. A tendência reflete a busca por soluções mais práticas, adaptadas à realidade específica de cada equipe. No fim das contas, investir em saúde mental corporativa deixou de ser diferencial e caminha para se tornar requisito básico para competitividade e sustentabilidade dos negócios. 👉 Na sua percepção, as empresas já tratam saúde mental como prioridade?

