Helô de olho em Ribeirão Preto

O debate sobre o fim da escala 6×1 e a redução da jornada de trabalho tem levado empresas e entidades industriais a discutir os impactos da mudança sobre os custos de produção, a organização das equipes e os investimentos em tecnologia.
Na indústria, uma das questões em pauta é como manter a capacidade produtiva diante de uma eventual redução da jornada semanal de 44 para 40 horas, sem diminuição salarial. A proposta prevê dois dias de descanso por semana e ainda precisa passar pelas etapas de votação no Congresso Nacional.
Segundo levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI), 97% das indústrias seriam impactadas por uma redução legal da jornada. Atualmente, 85% das empresas do setor trabalham com jornadas de 44 horas semanais, enquanto cerca de 30% utilizam a escala 6×1.
Outro estudo da entidade estima que as despesas adicionais poderiam chegar a R$ 267 bilhões por ano na economia, dos quais R$ 87,8 bilhões corresponderiam à indústria. As projeções consideram a necessidade de novas contratações ou do pagamento de horas extras para preservar o volume de produção e o atendimento.
Os impactos, porém, variam conforme o setor, o porte da empresa, a jornada adotada e a possibilidade de compensar a redução das horas com ganhos de produtividade.
Automação pode ganhar espaço nas decisões de investimento
Na avaliação de Ágata Turini, CEO da Fertron e especialista nos setores industrial, agroindustrial e de bioenergia, uma eventual mudança na jornada pode alterar a análise financeira dos investimentos em automação.
“Se uma empresa precisar manter a mesma capacidade produtiva com menos horas disponíveis por trabalhador, terá algumas alternativas: contratar, reorganizar a operação ou elevar a produtividade por hora. A decisão dependerá da realidade de cada negócio, mas a automação tende a ganhar peso nessa avaliação”, afirma.
A redução de 44 para 40 horas representa uma diminuição de aproximadamente 9% nas horas regulares disponíveis por trabalhador. Isso não significa um aumento automático na mesma proporção do custo total das empresas, já que os efeitos dependem da composição da folha de pagamento, dos acordos coletivos, das escalas e da produtividade de cada operação.
Ainda assim, a preservação dos salários pode elevar o custo da hora trabalhada e influenciar o prazo de retorno de investimentos em tecnologias que reduzam tarefas manuais, perdas de produção e paradas não programadas.
Entre as soluções consideradas pelas empresas estão sistemas supervisórios, sensores, robótica, manutenção preditiva, inteligência artificial aplicada aos processos e centros integrados de operação.
“A automação não se resume à substituição de pessoas. Em muitos casos, ela permite retirar profissionais de atividades repetitivas ou de maior risco e direcioná-los para funções de análise, controle e tomada de decisão”, diz Ágata.
Falta de mão de obra qualificada amplia desafio da indústria
O debate sobre a jornada de trabalho ocorre em um cenário de dificuldade para contratar profissionais especializados. O Mapa do Trabalho Industrial, elaborado pelo SENAI e pela CNI, estima que o Brasil precisará formar ou requalificar 14 milhões de trabalhadores entre 2025 e 2027.
Ao mesmo tempo, o país ainda tem espaço para ampliar a automação industrial. De acordo com a Federação Internacional de Robótica, a média mundial chegou a 177 robôs industriais para cada 10 mil trabalhadores da indústria de transformação em 2024. Coreia do Sul, Singapura, China, Alemanha e Japão estão entre os países com maior densidade de robôs.
No Brasil, a adoção de tecnologias varia entre setores e regiões. Enquanto grandes indústrias e operações contínuas apresentam níveis mais avançados de automação, pequenas e médias empresas enfrentam desafios relacionados ao acesso a crédito, infraestrutura, profissionais qualificados e capacidade de investimento.
Para Ágata Turini, uma eventual mudança na jornada pode acelerar avaliações sobre eficiência e modernização dos processos industriais.
“Antes de investir, a empresa precisa identificar onde estão os gargalos, quais processos podem ser digitalizados e em que pontos a tecnologia produz ganho real. Automatizar sem planejamento não garante aumento de produtividade”, afirma.
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Agro e bioenergia têm operações que exigem funcionamento contínuo
Nas cadeias ligadas ao agronegócio e à bioenergia, a adaptação pode ser mais complexa devido à localização das unidades produtivas e à necessidade de manter determinadas operações em funcionamento contínuo.
Usinas, fábricas de alimentos e unidades de processamento dependem de operadores, instrumentistas, eletricistas e técnicos de automação. Parte dessas instalações fica distante dos grandes centros urbanos, o que pode dificultar a contratação de profissionais especializados.
Nesse contexto, tecnologias como operação remota, manutenção preditiva e centros integrados de controle podem fazer parte das estratégias para acompanhar diferentes unidades simultaneamente.
A implantação dessas soluções, no entanto, exige investimentos em conectividade, segurança dos sistemas, integração de dados e capacitação das equipes.
“Uma mudança desse porte não ocorre de forma imediata. Projetos industriais precisam ser estudados, contratados, instalados e incorporados à rotina da operação. Por isso, mesmo sem uma definição legislativa, o tema já começa a entrar no planejamento das empresas”, conclui Ágata.
Sobre a Fertron
A Fertron é uma integradora brasileira de automação industrial fundada em Sertãozinho (SP), com 40 anos de atuação. Desenvolve soluções para setores como açúcar e etanol, papel e celulose, alimentos e bebidas, química, mineração e óleo e gás, além de atuar no mercado internacional.
Mais informações: fertron.com.br .
Sobre Ágata Turini
Ágata Turini é CEO da Fertron e diretora estadual do CIESP-SP. Com mais de 15 anos de experiência nos setores industrial, agroindustrial e de bioenergia, é formada em Direito pela Universidade de São Paulo (USP) e em Administração de Empresas pela Fundação Getulio Vargas (FGV).
Mais informações: agataturini.com.br .


